Pai e Filho
Era
uma vez um rapaz que ia muito mal na escola.
Suas notas e o comportamento eram uma decepção para seu pais que, como
bons cristãos, sonhavam em vê-lo formado e bem sucedido.
Um belo dia, o bom pai lhe propôs um acordo:
Se você, meu filho, mudar o comportamento, se dedicar aos estudos e conseguir ser aprovado no vestibular para a Faculdade de Medicina, lhe
darei então um carro de presente.
O pé e o
passo
Um
dia desses da criação, um pé percebeu que vivia na mais profunda
tristeza. Não havia jeito. Tinha que parar para ver o que vinha
acontecendo consigo e com suas relações de pé, já não muito firmes.
Sentia-se uma vítima. Lembrava-se que, durante a sua vida inteira,
suportara o peso de um corpo enorme sem o devido reconhecimento.
Lamentava-se também de que o seu próximo mais próximo, o outro pé,
era um ingrato e despreocupado colega de caminhos, um falso amigo que
nada fazia para que as coisas mudassem.
Já era tempo de fazer alguma coisa.
Colocou-se a postos e, nesse mesmo instante, sentiu-se inseguro, incapaz
de dar um passo.
Era um medo pânico, sem palavras, um medo surdo que não o deixava
entender mais nada. Um medo cego que o impedia de tudo, menos de sentir
muita raiva do outro pé e daquele corpo pesado que ele tinha que
carregar. Pelo contrário, a raiva ia aumentando e ele se sentindo cada
vez mais rejeitado. Mas, felizmente, na sua natureza de pé, ele
continuava a caminhar para o próximo passo.
Porém, cada vez que ele pensava em dar o passo, um medão tomava conta
dele e o deixava como que paralisado. Ficou nesse chove não molha
durante algum tempo, até que, num dia desses da recriação, o pé saiu
do chão.
Foi como se o chão lhe faltasse; como se todas as suas referências
tivessem se perdido. Viu o corpo se entortar todo. No meio do caos dessa
hora, sentiu apenas uma felicidadezinha com gosto de vingança: a queda
do corpo estava em suas mãos.
Mas estava acontecendo muito mais do que isso. Viu, muito assustado, o
mundo todo mudando de lugar. Ele então se sentiu desequilibrado. Mas já
não havia mais como voltar atrás; ele agora fazia parte do passo.
Ele agora estava diante do poder de acertar o passo e ficar de pé ou
cair fragorosamente. O corpo cairia, mas ele também. Isso, para o nosso
amigo pé, era algo novo e mexia com os seus sentimentos.
Seria muito legal continuar com o seu desequilíbrio e derrubar aquele
corpo egoísta. Só assim o seu valor seria finalmente reconhecido.
Seria legal deixar o outro pé no ar, tão desequilibrado quanto ele;
assim, o outro pé sentiria a dor de não ter a certeza de poder estar
com os pés no chão.
É. Seria.
Mas também seria desastroso para ele. Para que isso acontecesse, ele
precisaria continuar fora do chão até cair no próprio chão com todo
o seu fracasso. Seria uma vitória de pé quebrado.
É. Não seria melhor.
O pé primeiro teria que completar o passo.
Nosso amigo pé empenhou-se então na busca do chão.
Cada coisa no seu tempo, cada tempo no seu lugar.
Ele, então, completou o passo.
Foi um passo assustado, um passo tímido, medroso, mas foi um passo.
Ele pode ver o corpo se reequilibrar. Pode ver o outro pé se relaxar.
Sentiu, inexplicavelmente, uma ponta de satisfação.
Descobriu que, sem o seu passo, o corpo não teria como lhe dizer da sua
importância.
O nosso amigo pé teve que admitir que não vinha dando muita chance ao
corpo pra ele avançar e se reequilibrar.
Depois do passo, o outro pé estava lá, tão firme quanto ele. Tão
igual a ele como ele nunca tinha pensado. Ele, então, pode sentir a
importância de ser pé, de ficar de pé sem precisar derrubar o outro.
Nesse dia, um dia como tantos outros, o nosso pé pode descansar e
deixar que a vida corresse sem embaraços. Agora, ele era outro. Ele
agora se sentia maior na sua importância de pé sem raivas e rancores.
Ele agora não era o outro pé. Ele agora fazia parte do corpo, fazia
parte do movimento, fazia parte do próprio passo.
Colaboração
Bruno Santi
Obrigada Bruno, por participar
beijos GIOVANNA
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